Assando bolos em Kigali (Dica de Leitura da Carla Maicá)

22/03/2017

Comecei 2017 com um projeto literário: ler ao menos doze escritoras neste ano. Uma ao mês, coisa pouca, despretensiosa. Achei que seria uma boa maneira de colocar a leitura de ficção em dia e também de conhecer novas autoras. O detalhe é que todos os livros têm em comum não somente a escrita feminina, mas também a voz da comida em suas páginas.

Foi assim que tirei da estante o livro "Assando bolos em Kigali" da africana Gaile Parkin, o livro escolhido para fevereiro. Nem sabia do que se tratava quando o peguei em um sebo: na capa estavam assando e bolos, duas palavras que gosto muito logo, poderia ser bom.

Para minha surpresa o que encontrei nesse livro foi uma protagonista poderosa, Angel Tungaraza, boleira profissional habitante de um complexo em Ruanda. Esposa de um professor universitário, mãe de dois filhos já mortos e avó de cinco crianças que, dentro das circunstâncias, são criados por ela e o marido.

Todos os capítulos são narrados a partir das encomendas de seus bolos e é assim que temos contato com o feminismo de Angel, um feminismo genuíno, prático, essencial, que passa pela sororidade antes dar lugar ao empoderamento das outras mulheres de seu convívio. É através do crescimento profissional de Angel que ela consegue perceber o quão outras mulheres devem provar deste lugar. O lugar que passa pela autoafirmação, e autoestima.

Não vou contar toda a história porque desejo que você leia este romance, mas gostaria de pontuar alguns episódios da narrativa que me tocaram profundamente. Um deles é sobre o nome de uma menina recém-nascida que tem o bolo de batizado encomendado pelo tio. A boleira pede o nome da menina para colocar na decoração do bolo e para sua surpresa o nome será "Goodnough", algo como "Muito Bom", já que nasceu menina. Se fosse menino o nome seria "Excelente", será? Angel se incomoda com a distinção e comenta que não é um bom nome para menina e pede para negociar o bolo com a mãe do bebê. Não fica explícito, mas o assunto é retomado de maneira muito sutil quando é narrado que no bolo Angel entrega está escrito "Perfect". Eu achei de uma delicadeza tão linda este episódio que fiquei emocionada. O fardo que uma menina carrega desde o nascimento revelado de maneira quase poética. E assim, às vezes quase sem querer e outras bem ardilosamente, Angel vai mostrando o poder que cada uma dessas mulheres da trama possui. Para a prostituta que foi enganada pelo cliente ela consegue cobrar duas vezes mais o valor de um bolo e repassa o dinheiro para cobrir o prejuízo da moça. Para a senhora desamparada ela ensina como preparar e confeitar bolinhos menores para vender à beira da estrada. Sugere que a americana, esposa de um empregado da ONU que a deixa trancada em casa, alfabetize às escondidas as mulheres do complexo. Dá aulas de empreendedorismo para alunas da escola local, assim como consegue trabalho no restaurante da amiga para portadoras de HIV. Consegue que outras mulheres busquem costureiras locais ao invés de mandarem fazer as roupas no alfaiate que sempre faz os vestidos menores que o encomendado. Adota como filha a comerciante órfã para que ela tenha o casamento nem mesmo sonhado. Livra outra amiga do pretendente inoportuno.

Assim, sem querer ela vai transformando a realidade da comunidade em que mora de uma maneira muito simples: empoderando as mulheres vizinhas. Mostrando que é esta força que une, transforma e enriquece a comunidade a tornando mais harmônica e próspera.

Parece um livro fácil, levinho de ler, pois a escrita embora retrate os dramas da guerra e dos conflitos africanos, é muito fluída. Mas para quem tem a sensibilidade de entender o tamanho da desigualdade de gênero e vivencia essas mesmas na pele, a leitura deste romance é um tapa de luva que mostra a importância antes de tudo da união entre as mulheres e não a maldita rivalidade que a sociedade não cansa de propagar que existe entre nós. O livro é um manifesto para que possamos enxergar nossas semelhantes com empatia, compaixão e acima de tudo cumplicidade.

Assando bolos em Kigali, Gaile Parkin

Editora Globo, 2009 - 320 páginas


Sobre a Carla Maicá:

Sagitariana que adora comer, viajar e ler. Ri alto e chora fácil. Tradutora por formação, cozinheira por opção amorosa e autora do blog Cucina Artusiana. Pesquisadora eterna de gastronomia. Prefere vinho, pão e azeite. Condena creme de leite, margarina e chocolate branco. Adora escrever, desde que não artigos científicos. Não tem filhos, nem animais de estimação. Só manias e um marido fofo, o Zé.